A devoção aos Santos Reis tem raízes na cultura ibérica e é uma das festividades católicas populares mais difundidas em todo o Brasil desde a Colônia, assumindo variadas formas de norte a Sul do Brasil. 

Na Chapada Diamantina o Reisado é uma das manifestações culturais mais recorrentes, e pode ser considerada uma marca de identidade do Território, em parte pela forte ligação histórica e cultural com Minas Gerais, onde as folias de Reis também são muito presentes. 

 No entanto, nas últimas décadas, vários grupos desapareceram após a morte de seus líderes, sem ter continuidade através da renovação dos membros; além disso, o número de integrantes dos grupos ainda existentes tem diminuído, a ponto de às vezes tornar a saída do grupo inviável. Hoje, infelizmente, pode-se dizer que o Reisado em Lençóis e em vários locais da Chapada Diamantina é um bem cultural em grave ameaça de desaparecimento dentro de uma geração, caso nada seja feito para reverter o quadro atual.

Vários fatores são responsáveis por este declínio: 

1) o Reisado é um compromisso, uma promessa, uma obrigação que demanda sacrifícios, que poucos jovens estão dispostos ou tem condições de abraçar; 

2) a emergência de religiões neopentecostais tem minado as bases sociais em que o Reisado existe e se nutre; 

3) a dificuldade de acesso às políticas públicas de Cultura da grande maioria dos praticantes adultos do Reisado, que em geral não estão cientes de seus direitos culturais; 

4) o baixíssimo ou nulo investimento, por parte da maioria dos gestores municipais de Cultura do Território Chapada Diamantina, de recursos públicos para subsidiar a realização das caminhadas dos Ternos no período entre Natal e o Dia de Reis; 

5) as mudanças de estilo de vida e de trabalho dos praticantes, que impedem ou dificultam o afastamento do trabalho por um período tão longo quanto o tradicionalmente demandado para fazer a “caminhada” dos Ternos, que costumavam andar pelas zonas rural e urbana dos municípios por duas semanas consecutivas; 

6) o declínio da receptividade dos donos das casas visitadas pelos Ternos, que são uma das principais fontes de sustentabilidade da manifestação e parte de seu próprio significado.

 

No contexto da pandemia, estas manifestações foram ainda mais fragilizadas, e em 2021 não foi possível realizar as rezas, o samba e a caminhada dos Ternos de Reis em segurança.

 

Para unir os reiseiros do território Chapada Diamantina para o enfrentamento a esses desafios e dificuldades, surge a proposta de formar a Rede dos Ternos de Reis da Chapada Diamantina. Faz-se urgente a renovação dos quadros, o engajamento dos jovens, a transmissão dos saberes e ao mesmo tempo a adequação do Reisado à nova realidade da Chapada Diamantina, que tem se tornado menos rural e mais atrelada à indústria do turismo.