Os dois Ternos de Reis da sede do município de Lençóis, o Reisado da Viola, liderado por Dona Dezinha, e o Terno de Reis de Zabumba, liderado por Dona Domingas, se uniram para elaborar o projeto Salvaguarda do Reisado de Lençóis: saberes e fazeres das reiseiras da Chapada Diamantina, que foi contemplado com o Prêmio de Preservação dos Bens Culturais Populares e Identitários Emília Biancardi (CCPI/SECULT-BA)/Programa Aldir Blanc Bahia, para realizar ações de documentação e divulgação do reisado na Chapada Diamantina.

O Reisado da Viola 

Nascida em Andaraí em 1957, em uma família de reiseiros, Adelsaí Araújo Santos, conhecida como Dona Dezinha, é neta de Josefa Maria de Souza, que vivia no povoado de Bate Tambor, zona rural de Andaraí, na Chapada Diamantina. Sua avó era líder de um Terno de Reis e responsável pelos festejos de Cosme e Damião. Após falecer, seu filho Antônio Ferreira Gomes, conhecido como Antonhão, assumiu a responsabilidade do Reisado. Dona Dezinha mudou-se para Lençóis em 1978 e em seguida trouxe seu pai para esta cidade. Antonhão iniciou seus trabalhos no Reisado em Lençóis, criando seu próprio Terno em 1981, que ficou conhecido como “Reisado de Antonhão”. Havia adultos e crianças em seu reisado, inclusive a maioria de seus netos.
Após o falecimento de Antonhão, em meados dos anos 1990, o Reisado ficou adormecido até 2013, quando Dona Dezinha resolveu retomar a obrigação de seu pai, herdada de sua avó, e renovou o Terno de Reis, agora chamado "Reisado da Viola", em homenagem ao instrumento líder da orquestração do Terno.

Hoje, seus filhos Samuel, Gesnem e Toninho e netos participam do Reisado da Viola, além de amigos que vivem no distrito de Otaviano Alves (Tanquinho) e em Lençóis, como Lourival (voz), Artur (violeiro) e Renata (pandeiro). Em janeiro, no dia de Santo Reis, e também na Festa de Nosso Senhor dos Passos, dia 02 de fevereiro, o terno sai pelas ruas de Lençóis.

 

Reisado da Viola na escadaria da Igreja de Senhor dos Passos, Lençóis, janeiro de 2021. Fotógrafo: Jaime Sampaio

 

Dona Dezinha e a neta Arísia nas ruas de Lençóis, janeiro de 2021. Fotógrafo Jaime Sampaio.

 

O Terno de Reis de Zabumba

Maria Domingas dos Santos, conhecida como Dona Dominga, começou a cantar Reis em 1979 por uma promessa de sua mãe, depois de sobreviver a um tiro, aos 28 anos de idade. Ela vivia em Andaraí, onde nasceu, e estava grávida de oito meses, quando levou um tiro por conta de uma briga entre dois homens. Vinha do rio com o filho mais novo de 4 anos, com uma bacia de prato na cabeça, a barriga grande. Em meio à troca de tiros entre os homens, foi atingida por uma bala nas costas, que atravessou sua barriga e matou seu filho. Foi hospitalizada e sua mãe fez a promessa de que, se sobrevivesse, ela iria cantar reis nas Lapinhas todos os anos, enquanto tivesse vida. Ela lhe disse “Vai cantar reis da Lapinha e da Igreja primeiramente, e depois fazer as caminhadas nas casas”. 

Antes Dona Domingas e seu marido Antônio já acompanhavam um terno de um senhor chamado Pitucha (chamado Caminhada da Felicidade) e sua mãe, Ana Francisca Ferreira, também tinha um terno, chamado Reis do Zabumba. Os instrumentos deste terno são só as gaitas (flautas) e percussão (zabumba, tambor e pandeiro, ganzá, palminhas de madeira). Quando Dona Dominga começou a trabalhar, adotou o nome do terno de sua mãe, que pouco tempo antes tinha parado de cantar reis, por motivos de saúde. 

Em 1999, após 20 anos trabalhando em Andaraí, veio para Lençóis, porque tinha uma promessa para Senhor dos Passos. Era casada com um lençoense, Antônio Pereira da Silva, e acabou ficando nesta cidade. Desde que seu reisado começou a trabalhar, cantou Reis em Campos de São João, Boninal, Palmeiras, Tanquinho, e várias localidades rurais (Pau de Colher, Remanso, Brongo). 

Ao sair em caminhada, o primeiro lugar que o seu Terno visita no dia 25 de dezembro é a Igreja do Rosário, canta na porta, depois canta dentro o de Deus Menino da Lapinha. Em seguida passa nas casas, e por último na porta da Igreja de Nosso Senhor dos Passos, retornando para o Tomba, bairro onde vive. A caminhada se estende de 19 hs até 4 da manhã. De 25 a 31 de janeiro, o Terno sai nas ruas de Lençóis. Do dia 31 até 06 de janeiro, sai para a caminhada na zona rural e outras cidades. No dia 06, ela faz a reza na sua casa, onde tem o altar dos Três Reis Magos. Primeiro bate o Reis na porta, depois entra e vai rezar no altar. Depois da reza, acontece o samba até as 4 da manhã.

Em 2019, aos 96 anos de idade, faleceu seu esposo Antônio. Mesmo assim, Dona Domingas, hoje aos 73 anos de idade, superou e segue adiante com seu Reis, deixando a grande lição: “O Reis é alegria. As coisas ruins a gente tem que deixar pra trás, pras águas levarem”. 

 

Terno de Reis de Zabumba na escadaria da Igreja de Senhor dos Passos, Lençóis, janeiro de 2021. Fotógrafo: Jaime Sampaio

 

Dona Dominga cantando na Igreja de Senhor dos Passos, Lençóis, janeiro de 2021. Fotógrafo: Jaime Sampaio